quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Nelson Werneck Sodré - Sobre a imprensa

Senhores pequenos e raros visitantes do meu despretensioso blog.
Atualizar ele está virando uma prática interessante! Pensar em o que colocar no blog é mais ou menos pensar no que quero dizer ao mundo, aos meus amigos e companheiros. É uma grande satisfação tudo isso.


Trago um trecho do Nelson Werneck, grande historiador brasileiro, falecido em 1999. Quem quer conhecer um pouco mais dele acessem: http://pt.wikipedia.org/wiki/Nelson_Werneck_Sodré



Ele escreveu um livro que se chama "História da Imprensa no Brasil", uma obra antiga, de 1966, mas muito rica e detalhada. Essa obra sumiu das livrarias e foi voltar somente em 1999, com sua 4ª Edição e com um capítulo especial do Sodré intitulado:  O pensamento de Nelson Werneck Sodré sobre a imprensa e os meios de comunicação de massa no Brasil, nos últimos anos, já que faz bastante tempo que o livro foi publicado e de lá pra cá a imprensa brasileira mudou muito.


Li boa parte da obra e esse capítulo especial é de fato o mais interessante. Recomendo. Sodré, tem um olhar bastante científico, entende bastante sobre os monopólios de comunicação e sabe do papel que têm enquanto instrumento de legitimação e perpetuação da ordem vigente e com isso, assassinam a legítima imprensa, o legítimo jornalismo, que deveria ser eticamente compromissado com a verdade e com os interesses do povo. Enfim, segue o trecho que mencionei: 











"Esta [a liberdade de imprensa] é colocada sempre, e agora mais do que nunca, nos termos da compatibilização com o regime dominante, com as classes dominantes, com as forças políticas dominantes. Trata-se de assegurar, por dispositivos legais, a situação existente, quando a grande imprensa detém o comando da informação e, com ele, estabelece as regras do jogo político. Batizar de democracia um quadro como o que é apresentado pela grande imprensa brasileira, atualmente, é, sem dúvidas, levar muito longe uma farsa que, pelo seu uso e abuso, se transformou em norma. Quando a imprensa, como aqui e agora, modula um coro repetitivo de louvação ao neoliberalismo, está claro e evidente que perdeu a sua característica antiga de refletir a realidade.
Por razões que a dialética explica, verifica-se, por contraste, o extraordinário esforço que se espelha no aparecimento de centenas de jornais novos e pequenos, alguns de vida efêmera, como é natural, preenchendo o vazio que a grande imprensa estabeleceu em relação ao que é nacional e ao que é democrático. O Brasil real, com a sua imensa diversidade e os seus problemas enormes, começa a repontar, definindo os seus traços e os seus rumos, nessa proliferação de jornais que contrastam, em tudo e por tudo, com o quadro estabelecido pela grande imprensa, a imprensa tradicional, porque antiga. A oligopolização é rompida, assim, pelo esforço descomedido dessa floração de jornais e revistas de menor porte, mas que refletem com mais clareza e justeza a paisagem social e política do país. Nos quais, inclusive e felizmente, os nossos problemas, que são aqueles que giram em torno da existência das classes menos favorecidas, vêm sendo discutidos em torno da existência das classes menos favorecidas, vêm sendo discutidos e em torno de cuja discussão surgem as propostas convenientes aos interesses daquelas camadas da opinião que não encontram guarida nem vez na imprensa oligopolizada. Por outro lado, jornais que servem a aspectos e atividades parceladas da sociedade procuram preencher o vazio que aquela deixa, como se os problemas fundamentais não fizessem parte da realidade do nosso povo.
A farsa que, no desenvolvimento do processo, torna cada vez mais clara o sentido daquilo que, no Brasil atual, se pretende conhecer e aceitar como democracia, coloca com escândalo não apenas o conceito de democracia como o de realidade nacional, sempre escondida nos grandes jornais e revistas, na imprensa que, pouco a pouco, aparece com os seus traços definidores e inconfundíveis de alavancas suportando a alienação e buscando convencer os leitores de que o quadro apresentado, nessa unanimidade torpe de opiniões, resulta de uma fatalidade, a que todos devem se curvar. Na verdade, a imprensa oligopolizada e vinculada à estrutura social e política vigente definiu a sua alienação e perdeu qualquer traço do que é nacional aqui. A alienação é o seu retrato."


Páginas XVII e XVIII do Capítulo especial: O pensamento de Nelson Werneck Sodré sobre a imprensa e os meios de comunicação de massa no Brasil, nos últimos anos, do livro História da Imprensa no Brasil

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